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Revista Nós da Escola
Rio de Janeiro, n║ 41, pp 8-12. set. 2006.

Helenbar no país de Alice
por Renata Petrocelli


Ela pode ser uma personagem virtual, com ares de Alice no país das maravilhas e habitante de um universo que mistura fotografia, ficção e computação gráfica. Mas também pode ser uma agitada carioca contemporânea, dividida entre o mestrado na Esdi/Uerj e trabalhos de design gráfico. Na vida de Helena de Barros – ou Helenbar, para os internautas mais íntimos –, imagem é tudo. Helenbar, a criatura, surgiu em 2003 e logo conquistou milhares de fãs em seu fotolog na internet. Até hoje, protagoniza cenas inspiradas em Alice e também em estrelas de cinema dos anos 40, pin-ups e personagens do circo do começo do século XX. Helena, a criadora, tem 33 anos, vive inventando adereços para si própria e já mudou a cor dos cabelos centenas de vezes. Produz sozinha todas as imagens de seu fotolog e de seu site (http://helenbar.com), que partem de auto-retratos. "O auto-retrato é uma matéria-prima. Sou a fonte mais acessível de personificação das minhas idéias, sei o que quero produzir e como devo atuar para conseguir exatamente o que busco", argumenta Helena, que dá a receita para quem quer aproveitar ao máximo o universo de imagens que nos cerca. "É preciso desenvolver o modo de olhar, numa equação de criatividade, cultura, expressão, autoconhecimento, estilo, disponibilidade de recursos e técnica."

NE :: Na sua opinião, qual é o papel da imagem no mundo contemporâneo?
Helena :: Vilém Flusser diz que imagens são mediações entre o homem e o mundo, são mapas do mundo, mas passam a ser biombos. O homem, em vez de se servir das imagens em função do mundo, passa a viver em função de imagens. Estamos completamente saturados de imagens no mundo contemporâneo. Consumimos milhares delas todos os dias sem sequer nos darmos conta, na televisão, nos jornais, no cinema, nos anúncios, nas revistas, nos livros, na internet. A imagem é ao mesmo tempo um deleite e uma armadilha. Somos acostumados a viver a partir de imagens, a acreditar nas imagens que o mundo nos oferece. A informação visual tem um enorme poder de sedução, pois se confunde facilmente com o real, o que lhe confere proporcional poder de manipulação. O excesso de imagens a que estamos expostos hoje em dia nos deixa anestesiados e facilita ainda mais o processo de controle exercido por meio da imagem. É importante educar o olhar para o mundo contemporâneo, aprender a ver o que está por trás das imagens e a filtrar o que nos interessa. Acredito que a imagem tenha um papel simbólico fundamental na construção de valores do indivíduo e da sociedade. É preciso saber julgar e se posicionar diante do que nos é oferecido.

NE :: E qual seria a melhor forma de pais e professores prepararem as crianças para esse papel crítico diante das imagens a que elas são expostas?
Helena :: As crianças devem ser incentivadas desde cedo a formular, produzir, consumir, compreender e trocar imagens. Elas têm de ter consciência de que estas imagens representam valores e, dependendo de como são tratadas, podem nos tornar mais saudáveis, tolerantes, compreensivos e felizes como seres humanos, ou podem acirrar conflitos, o consumo vazio, a intolerância. Cada um de nós é uma fonte inesgotável de criatividade, temos a capacidade, a responsabilidade e o dever, como indivíduos e como grupo, de representar e transmitir a nossa cultura, tradições, vontades, ideais, angústias, frustrações, tristezas e alegrias. E podemos fazer isso por meio das imagens. Os professores têm um papel fundamental nesta formação. Um professor apaixonado e interessado pelo que faz é a maior fonte de inspiração e motivação para seus alunos.

NE :: As novas tecnologias também têm um papel importante na forma como lidamos com a imagem atualmente. Como você avalia essa influência?
Helena :: Acredito que as tecnologias digitais ampliaram ainda mais o contato com as imagens e aproximaram o público leigo da produção de imagens. As câmeras digitais facilitam muito o aprendizado da fotografia, a ausência de custo com filme e revelação diminui a culpa de errar. É incrível também como as novas gerações têm afinidade com o universo digital. É comum ver adolescentes autodidatas com extrema desenvoltura na criação de imagens com o computador. Há a vantagem de que essas máquinas são ferramentas multitarefa, não é mais necessário que se disponha de um contexto com tintas e material de desenho para se aprender a desenhar, por exemplo. Acho que a exposição virtual e os sistemas de comunicação da internet são grandes estimuladores desse processo também. Todos querem mostrar o que são capazes de fazer, criar novas formas de se comunicar e de se expressar. É possível se comunicar por meio de imagens com pessoas de todo o mundo, independentemente do idioma. Além das artes tradicionais, o próprio sistema e suas características midiáticas (conciliando imagem, vídeo, som, animação, estrutura de navegação, texto etc.) favorecem novas propostas de criação e de contextualização para as imagens. As exposições on line aumentam a visibilidade e o espaço para novos artistas. A interatividade, a comunicação em tempo real, a troca de experiências, a pesquisa, o intercâmbio de informações e a comunhão de afinidades se tornaram práticas globais, não existem mais fronteiras territoriais no campo da criação e de divulgação das imagens. Sua aceitação também depende menos das instituições e de padrões preestabelecidos. Cada indivíduo é um artista ou divulgador em potencial, contribuindo para uma visão da arte mais democrática e acessível.

NE :: No seu caso específico, a internet foi muito importante, porque o fotolog trouxe uma grande popularização do seu trabalho. A que você atribui o sucesso dos fotologs no Brasil?
Helena :: O maior diferencial do fotolog [página virtual para publicação de fotos] é a forma como os usuários estão interligados. É muito fácil conhecer e se comunicar com um grande número de pessoas. As imagens funcionam como iscas, cada uma com o seu perfil e, como cada página é repleta de links de imagem e texto, rapidamente se faz uma grande rede de comunicação, com gente do mundo inteiro. Nós somos um povo muito comunicativo, carente de atenção e de reconhecimento, acho que essas grandes comunidades da internet aumentam a nossa auto-estima. Outro ponto positivo para o sucesso do serviço é que é uma comunidade muito heterogênea, com os mais diferentes objetivos, de artistas a pessoas que só querem se divertir. É uma grande e poderosa rede de entretenimento. Alguns minutos de fotolog às vezes equivalem a ir a uma exposição, encontrar com os amigos ou ler uma revista de atualidades. Acho que essa é a grande vantagem do fotolog em relação a outras mídias: ele serve a vários propósitos, é bastante surpreendente. Além de tudo, é um serviço gratuito para a maior parte dos usuários.

NE :: E o que você acha que fez o seu trabalho se destacar nesse universo tão cheio de "iscas"?
Helena :: Quando comecei, o serviço ainda era recente e reunia uma crescente e fervilhante comunidade, composta em grande parte por artistas, fotógrafos e curiosos ávidos por trocar informações. Na segunda semana como fotológuer, pulei de três para 3.500 visitas e meu thumbnail [galeria de fotos em miniatura] foi para a página principal como um dos mais vistos do site, o que então não significava popularidade, mas curiosidade. A própria estrutura do sistema de navegação se encarregou da divulgação de forma espontânea, uma espécie de boca-a-boca virtual. A inovadora e original estrutura do fotolog foi uma verdadeira coqueluche mundial, principalmente aqui no Brasil, onde sofreu um boom de crescimento em progressão geométrica. Trabalhos diferenciados chamavam a atenção e peguei carona na divulgação, não só dentro do site, como em diversos outros meios de comunicação que abordaram o fenômeno do fotolog. Acredito que o cuidado com a estética das imagens e com o conteúdo, o amparo da literatura clássica, o interesse em computação gráfica e na imagem feminina também tenham sido responsáveis pela atenção que meu trabalho recebeu. Mas acho que nada disso é sinônimo de sucesso e que reconhecimento também é uma questão de sorte. Tem muita gente que faz trabalhos excelentes, dentro e fora do fotolog, e continua no anonimato.

NE :: De onde surgiu a idéia de criar a personagem Helenbar?
Helena :: "Helenbar" aconteceu meio por acaso. Foi uma brincadeira que deu certo, nada premeditado. O nome Helenbar sempre foi meu nick [apelido] de e-mail ("Helen" de Helena, "bar" de Barros). Em junho de 2003, um amigo me recomendou o fotolog. Criei um login [nome na rede] só para ver do que se tratava e comecei a experimentar o sistema, mas não tinha idéia de que iria virar um personagem.

NE :: E a relação com Alice no país das maravilhas?
Helena :: Sempre me sentirei inspirada por Lewis Carroll. Ele marcou meu jeito de ver as coisas desde a primeira vez que o li, há uns 15 anos. Acho que Alice muda um pouco a forma de a gente encarar a realidade, levando as coisas menos a sério, percebendo o surrealismo da vida e como o nosso cotidiano também faz tão pouco sentido. Desde 1992, já fazia desenhos inspirados por Alice. Em 2003, fiz o vestido para uma festa temática de amigos. Comecei fazendo apenas uma imagem e, quando vi, já tinha virado quase o livro inteiro.

NE :: Então foi Alice quem inspirou você a emprestar a própria imagem a esses trabalhos?

Helena :: Desde que li o livro Alice no país das maravilhas pela primeira vez, tive muita vontade de me sentir no papel da Alice e vivenciar todas aquelas situações. Foi assim que comecei a usar a minha própria imagem para o personagem, em uma espécie de realização pessoal. Ela era o único personagem real e humano da história, o que fazia do livro um excelente roteiro para o trabalho individual de fotomontagem, já que a única pessoa com que precisava contar era eu mesma e podia desenvolver todos os outros personagens digitalmente. Além disso, sou a melhor pessoa para interpretar as minhas idéias, pois sei exatamente o que estou buscando – expressão, conceito e resultado gráfico. Não tenho que discutir com ninguém, é completamente autoral.

NE ::
Para você, como é essa tradução de idéias em imagens?
Helena :: Acho que é preciso desenvolver o modo de olhar em uma equação de criatividade, cultura, expressão, autoconhecimento, estilo, disponibilidade de recursos e técnica. Se queremos ter um bom desempenho em qualquer área (não só com imagens), são muito importantes o estudo e a prática. Além da técnica, é preciso aprender quais são as questões fundamentais de linguagem, entender hierarquias e valores específicos de cada área, construir referências, situar o nosso trabalho dentro de um contexto e descobrir quais são as características singulares que podemos explorar. A formação, a sensibilidade e a experiência são o que nos torna aptos e afiados para produzir imagens interessantes com equipamentos caros ou com lápis e papel.

NE :: O que atraiu você no mundo das imagens, levando-a a transformálo em seu universo de trabalho?
Helena :: O interesse por imagens existe desde que me entendo por gente. Fiz escola de arte desde os 8 anos de idade. É um incentivo muito importante para crianças. Comecei a lidar com o computador e com o Photoshop [programa de tratamento de imagens] em 1994, na época do projeto de graduação do curso de Desenho Industrial, na Esdi/Uerj, com o tema Design gráfico e novas tecnologias de imagem. Motivada pelas novas possibilidades, mergulhei de cabeça na era digital. Meu projeto A alma subitamente entorpecida – ensaio gráfico sobre a sensibilidade através de Antonin Artaud, Vaslav Nijinsky e Vincent Van Gogh ganhou o prêmio Carmem Portinho de Arte e Cultura. Foi o primeiro contato que tive com imagem e tipografia digital e representou o desabrochar de questões que venho desenvolvendo e aperfeiçoando até hoje.

NE :: Quais são as primeiras recordações imagéticas que você guarda da sua infância?
Helena :: Adorava as coleções Enciclopédia da fantasia, com fábulas do mundo inteiro, e Os bichos, com várias espécies de animais, inclusive dinossauros, que eram os meus preferidos. Ambas têm ilustrações incríveis, elaboradíssimas, que gosto de ver até hoje. Passei grande parte da minha infância desenhando e vendo livros, acho que o vínculo com o universo das imagens deve ser construído e valorizado desde cedo, quando formamos a maior parte dos nossos valores culturais e sociais.

NE :: Em seu trabalho no fotolog, especialmente, parece que fica muito misturada a relação entre trabalho e lazer. Como isso funciona para você?
Helena :: São atividades e processos distintos. No dia-adia, como designer, há um cliente, objetivos concretos, metodologia e projeto. A forma e o estilo do trabalho se adequam a estas variáveis. O processo criativo se dá dentro de um universo técnico, pragmático. Já o que exponho no fotolog e no meu site pessoal é um trabalho autoral, no qual lido apenas com o meu imaginário e a minha única preocupação é satisfazer a minha própria vontade, em um processo investigativo, de expressão pessoal. O nível de realização e de recompensa é tão intenso que de fato se parece muito com lazer, embora seja uma atividade que encaro com muita seriedade. Acho que a técnica e a ludicidade se misturam muito, não dá para separar quando uma termina e começa a outra. Acho que podemos aprender brincando, ser inspirados pela técnica e trabalhar de um modo lúdico. Tudo depende de como encaramos as coisas.

NE :: Para as pessoas que não trabalham com design ou fotografia, quais são, na sua opinião, as possibilidades de se brincar com as imagens no mundo contemporâneo?

Helena :: Não é preciso trabalhar com essas áreas específicas para se expressar. O mais importante é a vontade de comunicar uma idéia. Acho que a literatura e a dança, por exemplo, sempre foram excelentes formas de comunicar imagens mentais. Cada um encontra a sua maneira. [X]

 

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